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Terra do Nunca



O conto que não contei

  Aí o coração já cansado de saber que não tem jeito toma uma flechada e sangra. Mais uma vez ele sangra.  A flechada é forte, rápida, sem tempo pra desvio. Ela acerta o lado esquerdo do peito, direto no alvo. Não adianta curativo. Ele sangra e fica batendo devagar. A impressão é que ele vai parar, que não quer fazer mais força pra entender, pra buscar, pra viver, pra amar. Mas a flechada não é certeira (quem dera que fosse) e ele cicatriza, meio que sem querer. Ele cicatriza sozinho, sem a ajuda de ninguém. Ele cicatriza no quarto escuro, no canto da cama, sendo abraçado pelos próprios braços. E a dor é enorme. Uma dor repetida.  Uma dor já sentida antes, já vivida antes. Uma  dor cansada de existir. Mas a dor vira novidade e a flechada parece nova...mesmo sendo tão conhecida por aquele coração fatigado, arrebentado. E ele cicatriza de novo, mas no meio disso tudo, fica vulnerável...

O batimento não é o mesmo e qualquer sinal de derrota vira motivo. Qualquer motivo vira tristeza. Qualquer tristeza vira desânimo. E todo desânimo espanta o sorriso. Sorriso antes  tão presente e tão necessário pra empurrar a carroça.

O vermelho vira preto e branco. A vontade é de sumir. Mas ele não para de bater e acaba acelerando a lágrima que não para de escorrer. E dói. E seca. E cicatriza. Mas deixa marca. E marcas são pra sempre. Marcas ficam lá, como se fossem lembretes ou sinais luminosos te fazendo passar por tudo aquilo de novo. E o novo não tem graça. Porque nenhum bom motivo é capaz de superar o sentimento de perda, de ausência, de saudade. Aquele sorriso ficou perdido no meio da confusão. Ninguém consegue ver, mas ele não bate com antes. Ele tenta deixar o pulso firme, mas está marcado, selado, jurado pra ser assim...

E a menina perdida sente falta dela mesmo.  Sente falta da motivação de querer mais. E  prefere se esconder das flechas que a seguem como armas ferozes. Elas tem vida e não deixam o coração dormir em paz. Vulnerável, ele segue sozinho. Vulnerável, ele sofre como se estivesse envenenado. E bebe do próprio veneno que se espalha pelo resto do corpo até chegar nas mãos que ficam molhadas de tanto tapar os olhos. Mas seca. Cicatriza. E volta a bater.

Mas a marca fica. O mundo parece insensível e imperfeito pro coração que só quer finalmente, morrer de amor...  



Escrito por Borboleta às 22h38
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